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Relacionamento: reduto de amor ou violência?

Ser capaz de reconhecer se estamos vivendo uma relação abusiva pode ser complicado e desafiador, especialmente quando há envolvimento emocional ou algum tipo de dependência na relação. É comum que as pessoas envolvidas, especialmente a vítima, sinta-se triste e experimente uma sensação de impotência diante da violência, no entanto, não tem clareza do que desperta esses sentimentos. Por isso, o primeiro passo é ser capaz de detectar características comumente presentes nesse tipo de relacionamento. Embora este texto esteja mais direcionado para os tipos de violência presentes em relacionamentos amorosos elas também podem estar presentes em relacionamentos familiares e de natureza profissional.


A violência física é um dos sinais mais facilmente identificáveis em função da sua materialidade, já a violência psicológica, não deixa marcas físicas mas pode ser igualmente nefasta. Muitas vezes, ela é praticada de modo disfarçado, em comentários irônicos ou em tom jocoso, mas sempre carregados de conteúdo depreciativo. As colocações podem incluir críticas à aparência física da vítima, menosprezo pelas suas conquistas, habilidades e escolhas. Tais investidas podem ocorrer tanto em ambiente reservado quanto publicamente, neste último amplia seu potencial destrutivo causando intenso constrangimento. Esses eventos podem afetar profundamente a autoestima e causar traumas emocionais significativos.


Outro sinal de alerta é o controle excessivo, que é frequentemente manifestado através do ciúme. O(A) parceiro(a) abusador(a) pode se sentir ameaçado(a) por outras relações da vítima questionando constantemente suas interações sociais ou acusando-a(o) de infidelidade, mesmo sem provas. Para não despertar a ira e a desconfiança do(a) parceiro(a) a vítima se distancia de familiares e amigos e se isola. Este fechamento vulnerabiliza ainda mais a vítima, pois uma das formas de lidar com o trauma da violência consiste em compartilhar o sofrimento vivido com pessoas próximas em quem a vítima pode confiar.


Além do ciúme, o(a) abusador(a) geralmente recorre a estratégias manipuladoras, como chantagem emocional, ameaças e intimidação, com efeito, acaba por impor sua vontade anulando a vítima. É importante lembrar que o tratamento de silêncio, que consiste em ignorar a vítima ou não responder quando interpelado(a) por ela, também consiste numa estratégia de manipulação psicológica.


Uma outra característica presente nas relações abusivas é a ciclicidade das agressões. As interações oscilam entre momentos de tensão crescente e agressão que se seguem de pedidos de desculpas. Isso pode ser emocionalmente desgastante, mas contraditoriamente, despertam a esperança de mudança aumentando a probabilidade de um novo ciclo de violência.


Estudos indicam que fatores sociais e culturais contribuem para que algumas vítimas, em sua maioria mulheres, permaneçam em relações abusivas a despeito de todo o sofrimento que elas experimentam (Baly, 2010). Isso porque um dos papéis sociais atribuído às mulheres é dar sustentação às relações familiares. A estabilidade dessas relações dependeria então da sua capacidade de suportar as turbulências em prol da manutenção dos vínculos. A passividade diante da violência é um dos recursos usado com este objetivo. Assim, romper com o relacionamento seria falhar com tais expectativas sociais. Na tentativa de manter a relação e fugir da estigmatização, ainda que submetida a situação de abuso, a mulher acaba, muitas vezes, por negar as agressões minimizando a severidade do comportamento abusivo do parceiro. Além disso, a vítima pode ainda sentir-se culpada por não conseguir sozinha mitigar as investidas violentas e permanecer no relacionamento.


A escuta qualificada e o acolhimento de um profissional de psicologia pode ser determinante para lidar com uma situação traumática desta natureza e superar seus desdobramentos. Se você reconhece algum dos sinais acima citados em suas relações, não hesite em buscar ajuda.


Saiba mais:


Baly AR. Leaving abusive relationships: constructions of self and situation by abused women. J Interpers Violence. 2010 Dec;25(12):2297-315. doi: 10.1177/0886260509354885. Epub 2010 Jan 25. PMID: 20100895.

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claudia faturi

Sou formada em Psicologia (Universidade Presbiteriana Mackenzie) e em Biomedicina (UNESP). Durante o meu Mestrado (UNIFESP), Doutorado (UNIFESP) e Pós-doutorado (USP) me dediquei à pesquisa científica investigando como o estresse pode aumentar a suscetibilidade a quadros de depressão e ansiedade.

Apoiada na minha experiência clínica e acadêmica, atualmente me dedico ao consultório de psicologia clínica atendendo jovens e adultos. 

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